Pagamentos de varejo: salário, boleto e débitos
O dinheiro que entra e sai da conta, o que muda entre trilhos e os nomes parecidos com status diferentes.
6 min de leitura
Assista ao documentário desta parte: Parte 2 · Um banco por dentro (~68 min)Pagamento de varejo parece simples quando você olha só para o extrato. Entra salário, sai boleto, cai débito automático. A arquitetura começa quando você pergunta o que muda entre ordem, confirmação, liquidação, trilho e conta, porque nomes parecidos no mapa do BIAN têm responsabilidades bem diferentes.
Salário não é um crédito, é um lote com promessa operacional
No cenário oficial v14 Process Salary Payments for Internal Accounts, view 54620, o repositório ainda mostra linhas de vida com nomes antigos: Payment Execution e Payment Order. As release notes do BIAN 14.0 anunciam as trocas: Payment Order passa para Payment Confirmation; Payment Execution passa para Payment Settlement. A ordem abaixo é minha leitura didática da jornada, não uma sequência normativa extraída do repositório.
A folha começa em Corporate Payroll Services, domínio de padrão Fulfill, cuja ficha diz que ele processa pagamentos líquidos de salário para empregados de clientes corporativos. Ele recebe a instrução da folha. Corporate Current Account, também Fulfill, bloqueia o total na conta da empresa antes do primeiro crédito. Essa reserva é o ponto que separa uma arquitetura séria de uma fila otimista.
Depois, Payment Confirmation confere e reserva. Payment Settlement move os fundos, passando por Internal Bank Account, que é Track e funciona como conta intermediária. Current Account credita Marina, personagem fictícia. Position Keeping, também Track, registra a posição. Correspondence, de padrão Operate, avisa fora do caminho crítico.
A lição dura: folha é um lote de milhares de pagamentos pequenos. Use idempotência por crédito, evento com id do lote, reserva do total antes do primeiro crédito, e comunicação assíncrona para o aviso.
Folha de pagamento interna no mapa v14
O desenho mostra a jornada com as duas trocas de nome obsoleto para o substituto usado nesta aula.
- Corporate Payroll Services · Fulfill
- Corporate Current Account · Fulfill
- Payment Confirmation · substitui Payment Order
- Payment Settlement · substitui Payment Execution
- Internal Bank Account · Track
- Current Account · crédito da Marina
- Position Keeping · Track
- Correspondence · Operate
Na prática, eu não trataria conta-salário como um domínio novo só porque o produto tem restrição regulatória própria. Eu modelaria as condições no Product Directory, aplicaria a regra no domínio da conta no momento do crédito, e trataria portabilidade salarial como Standing Order, de padrão Fulfill. O BIAN 14.0 não traz um domínio específico de conta-salário, e isso importa: inventar domínio para cada variação de produto deixa o mapa bonito no workshop e caro na manutenção.
Conta-salário: o produto muda, a fronteira precisa continuar limpa
A Resolução CMN 5.058/2022 dá restrições concretas para conta-salário. Ela só aceita créditos da entidade contratante, no art. 3º. Não movimenta por cheque, no art. 4º. É vedada para titular pessoa jurídica, no art. 2º, § 3º. A portabilidade salarial acontece a pedido do beneficiário, no art. 7º.
Essas regras não significam que você precisa criar um domínio chamado conta-salário no mapa. Eu procurei esse domínio na v14 e ele não aparece. A diferença está no produto, na elegibilidade, na origem aceita para crédito e na rotina de portabilidade, não numa nova capacidade universal de conta.
O erro clássico é colocar tudo em Current Account como exceção escondida. Isso funciona até alguém tentar auditar por que uma transferência foi recusada ou por que um crédito de origem errada entrou. A regra precisa estar modelada como produto, aplicada no ponto de crédito, e rastreável como decisão.
Quando o crédito vem de outro banco, o cenário oficial Handle Incoming Credit Transfer, view 55000, usa Correspondent Bank Operations, Payment Order e Payment Execution, todos obsoletos. Nesta aula, leia Payment Rail no lugar de Correspondent Bank Operations, e mantenha Regulatory Compliance para a checagem de lavagem de dinheiro, indicada pela mensagem Conduct AML Check.
Nome e status na v14
Toque num conceito e depois na definição.
Boleto e Pix: mesma frente de orquestração, trilho diferente
| Dimensão | Boleto | Pix |
|---|---|---|
| Trilho | Pagamento passa pelas instituições do arranjo, com base centralizada para registro e consulta dos boletos. | Usa SPI, com liquidação bruta em tempo real. |
| Diretório ou base | Base centralizada definida pela Resolução BCB 443/2024. | DICT operado pelo Banco Central. |
| Tempo de operação | As regras desta aula cobrem liquidação e devoluções previstas na Resolução BCB 443/2024. | Funciona 24 horas por dia. |
| Leitura arquitetural | Jornada adaptada da do Pix, com Payment Order Initiation, Payment Orchestration, Payment Confirmation, Payment Rail, Payment Settlement e Current Account. | A mesma frente de iniciação, orquestração, confirmação e liquidação fica mais direta porque o trilho já é o SPI. |
Boleto: não existe domínio mágico, existe regra de trilho
A Resolução BCB 443/2024 define os papéis do boleto: beneficiário, pagador, instituição emissora, instituição recebedora, instituição destinatária e base centralizada, que serve como repositório para registro e consulta dos boletos. O VR Boleto é R$ 250.000,00, no art. 19.
Quando o valor é igual ou superior ao VR Boleto, a transferência deve ocorrer no mesmo dia pelo STR, encaminhada para liquidação em até 60 minutos após o pagamento, conforme art. 16, I e § 1º. Abaixo desse valor, a recebedora pode usar compensação multilateral ou o procedimento do STR, conforme art. 16, II. Devoluções e acertos detectáveis por automação devem ocorrer até o dia útil seguinte ao da liquidação, conforme art. 18, § 1º.
STR aqui não é detalhe de infraestrutura. É liquidação bruta em tempo real, irrevogável, sem saldo negativo. Essa frase muda desenho de risco, fila, retry e conciliação.
Minha leitura: pagar boleto é uma jornada adaptada da do Pix. A frente usa Payment Order Initiation, Payment Orchestration e Payment Confirmation, cuja ficha lista checagens de risco, incluindo lavagem de dinheiro (AML), e Fraud Evaluation testa o risco de fraude. Depois entram Payment Rail, Payment Settlement e Current Account. Emitir boleto, como não há domínio de boleto na v14, eu colocaria como desvio registrado em ADR, perto de Cash Management And Account Services, de padrão Fulfill, com recebimentos pelo Payment Rail.
Nomes parecidos que eu validaria antes de qualquer desenho
Payment Order e Payment Execution aparecem em cenários antigos, mas são obsoletos na v14.Payment Confirmation confirma e reserva. Payment Settlement liquida. Misturar os dois esconde estado operacional.Direct Debit registrado é o lado do credor e tem padrão Fulfill. Direct Debit Mandate registrado guarda os mandatos e tem padrão Catalog.Direct Debit Collection e Direct Debits Service são obsoletos na v14, sem substituto citado nas release notes.Customer Consent é novo e registra preferências e restrições do cliente para débitos e pedidos de pagamento.Débito automático: mandato, consentimento e lado do credor
Débito automático costuma ser ensinado como uma autorização simples. No mapa, eu separo três coisas: o serviço que executa pelo lado do credor, o mandato que prova a autorização, e o consentimento que expressa preferência e restrição do cliente.
Na v14, Direct Debit Collection e Direct Debits Service estão obsoletos, sem substituto citado nas release notes. O domínio registrado Direct Debit tem padrão Fulfill e fica no lado do credor. Direct Debit Mandate tem padrão Catalog e guarda os mandatos. Customer Consent é novo, sem padrão citado aqui, e registra preferências e restrições do cliente para débitos e pedidos de pagamento.
Globalmente, existe o cenário oficial EXT Record Core SEPA Direct Debit Mandate at Creditor Bank, view 55394, para o esquema europeu. Eu não traria regra de SEPA para esta aula, porque o ponto didático é outro: mandato não é cobrança, consentimento não é liquidação, e trilho não é produto.
Se você colocar tudo num único serviço chamado débito automático, o sistema até passa no demo. A primeira auditoria pede quem autorizou, qual consentimento estava vigente, qual cobrança usou o mandato, e qual trilho liquidou. Sem essas fronteiras, a resposta vira busca em log.
Segunda de manhã
- 1
Modele um
Payment Railpor trilhoColoque a mesma frente de orquestração antes do trilho: iniciação, confirmação, checagens e liquidação. O que muda é a regra do trilho, não a intenção do pagamento.
- 2
Transforme regra normativa em configuração explícita
VR Boletoe o limite de60minutos não devem ficar enterrados em código de aplicação. Eles pertencem à configuração do trilho, com versionamento e trilha de auditoria. - 3
Registre todo desvio do mapa em ADR
Se emitir boleto ficou perto de
Cash Management And Account Services, escreva a decisão, a alternativa recusada e o risco aceito. Desvio sem ADR vira arquitetura oral. - 4
Valide nomes parecidos no pipeline
Faça o validador recusar
Direct Debit Collectionquando a versão alvo for BIAN 14.0. O mesmo vale paraPayment OrderePayment Execution. Falha silenciosa aqui vira contrato errado.
Checagem rápida
Perguntas rápidas
BIAN define uma ordem oficial para cada seta dessas jornadas?
Não nesta aula. O repositório lista linhas de vida dos cenários. A ordem narrada aqui é minha leitura para ensinar a arquitetura, usando os nomes e estados permitidos pela v14.
Por que não criar um domínio de boleto?
Porque a v14 não traz esse domínio. Minha leitura é tratar emissão como desvio documentado perto de Cash Management And Account Services e recebimento pelo Payment Rail. O ADR existe para não fingir que o mapa disse algo que não disse.
O que a IA Builder faz nesse pedaço?
Ela rascunha o mapeamento e os contratos com grounding nas definições oficiais, aponta nomes obsoletos, e mede divergência. A decisão continua humana, porque portabilidade, boleto e débito automático carregam regra regulatória e risco operacional.
Veredito
Eu desenharia salário, boleto e débito automático com uma frente comum de pagamento e trilhos explícitos. A fronteira que importa não é o nome popular do produto, é onde a regra muda: reserva antes do crédito, liquidação pelo STR, mandato, consentimento, AML, fraude e aviso fora do caminho crítico. Use o mapa do BIAN 14.0 como contrato de linguagem, mas registre em ADR onde o mercado brasileiro exige uma leitura própria.