Dois casos fictícios e IA Builder no banco inteiro
As decisões do Banco Ipê e da Trilha, e um laço de IA que não traz nome velho para o desenho.
6 min de leitura
Assista ao documentário desta parte: Parte 2 · Um banco por dentro (~68 min)A última aula da parte 2 junta o banco por dentro em dois casos fictícios e um laço de IA. O ponto não é decorar o mapa, é aprender a usá-lo sem trazer nome obsoleto, fronteira errada ou política escondida no código para dentro do desenho.
Dois casos, nenhum banco real
Os casos do Banco Ipê e da Trilha são fictícios, montados só com material público e com o mapa do BIAN 14.0 como referência funcional. Nenhum dos dois descreve a arquitetura interna de um banco real. Isso importa porque o exercício aqui é técnico: separar registro, decisão, contrato, evento e responsabilidade operacional.
No Banco Ipê, o problema é comum: a política de crédito está escrita dentro da esteira. Mudar um corte de score exige versão nova do sistema. O core de empréstimos funciona e fica. O objetivo é mudar a política sem tocar no contrato nem no core.
Na Trilha, a dor é outra. Cinco módulos vivem no mesmo código e no mesmo banco: cadastro, conta pré-paga, Pix, antifraude e financeiro. O mapa mostra dezessete domínios, mas isso não significa criar dezessete microsserviços. Significa enxergar as costuras antes de escolher a ordem do corte.
A lição de fechamento é simples: BIAN não decide por você. Ele reduz ambiguidade. A decisão continua sendo sua, com risco, sequência e custo de operação na mesa.
Na prática, antes de trocar um sistema, eu procuro o registro que muda mais rápido que ele. No Ipê, não era o contrato do empréstimo. Era a política de crédito. Trocar o core inteiro resolveria o problema errado.
Banco Ipê: tirar a política de dentro da esteira
O heatmap do Ipê preserva o que não precisa mudar: Session Dialogue, Party Lifecycle Management, Credit Risk Models, Customer Credit Rating, Consumer Loan e Disbursement. Compra o que não diferencia: Document Services, Correspondence e Collateral Asset Administration. Constrói onde a política e a experiência importam: Customer Offer e Underwriting. A esteira legada é aposentada no fim, não no começo.
O fluxo alvo fica mais legível. Customer Offer orquestra e guarda só o estado da oferta. Customer Credit Rating, no padrão Monitor, responde o score com versão do modelo. Underwriting decide com política versionada fora do código. Consumer Loan, no padrão Fulfill, cria o contrato no core por um adaptador. Disbursement, no padrão Transact, libera de forma idempotente. Financial Accounting, no padrão Track, lança.
O caminho oficial v14 usado no caso é POST /Underwriting/Evaluate. O cabeçalho Idempotency-Key e o campo PolicyVersion são do caso, não do BIAN. Essa distinção evita um erro silencioso: tratar uma convenção local como se fosse semântica oficial.
A migração segue cinco fases: fachada no pedido, eventos espelho, decisão em sombra, novo decide quando a divergência está explicada, esteira desligada. Sombra aqui quer dizer decidir em paralelo sem efeito no cliente, para comparar decisão antiga e nova antes de trocar o dono da resposta.
ADR do Banco Ipê
Trocar o core inteiro
- Removeria limitações antigas em uma única iniciativa.
- Resolveria o problema errado, porque o core de empréstimos funciona.
- A política continuaria podendo nascer acoplada a outro sistema.
Descartado.
Separar oferta e decisão
- Permite mudar política sem release do core.
- Mantém o contrato no sistema que já cumpre esse papel.
- Aumenta o custo de operar eventos e comparar decisões em sombra.
Escolha recomendada no caso.
Os casos
Trilha: dezessete domínios, quatro cortes
A Trilha tem um monólito com cadastro, conta pré-paga, Pix, antifraude e financeiro no mesmo código e banco. O mapeamento em v14 fica assim: cadastro usa Party Reference Data Directory, Party Lifecycle Management e Party Authentication. Conta usa Current Account, Position Keeping e Issued Device Administration. Pix usa Payment Order Initiation, Payee Management, Payment Orchestration, Payment Confirmation, Payment Rail e Payment Settlement. Antifraude usa Fraud Evaluation, Fraud Diagnosis e Fraud Resolution. Financeiro usa Financial Accounting e Regulatory Reporting.
A ordem do corte não vem do número de domínios. Vem do risco. Primeiro cadastro, porque todos escrevem nele. Depois antifraude, porque tem dono e ritmo próprios. Depois financeiro, porque recebe eventos sem tocar no fluxo do cliente. Pix fica por último, porque é fluxo de 24 horas e tolera menos experimento.
Antes de cada corte, entram eventos espelho com nomes claros: PartyReferenceDataDirectory.Reference.Updated, CurrentAccount.AmountBlock.Initiated, CurrentAccount.DebitandCredit.Executed, PaymentOrderInitiation.OrderInitiation.Initiated e FraudEvaluation.Models.Evaluated. Essa forma é minha, usando domínios e qualifiers oficiais para dar disciplina ao contrato.
A Lei 12.865/2013, art. 12, muda o desenho: recursos em conta de pagamento são patrimônio separado. Para a arquitetura, o saldo do cliente tem um dono só e nenhum serviço novo mantém saldo paralelo.
Erros que a Trilha evita
Laço de IA Builder, do pedido ao ADR
O agente ajuda a mapear, mas o validador e o arquiteto impedem que nome obsoleto ou fonte errada vire desenho oficial.
- Pedido do arquiteto · parte do banco ou produto local
- ADR · mapeamento decidido
- Agente IA Builder · propõe domínio e padrão
- Fichas BIAN v14 · versão fixada
- Contextual grounding check · fonte pergunta conteúdo
- Validador em código · rejeita obsoleto e inventado
- Arquiteto · aceita ajusta ou recusa
IA Builder no banco inteiro
O laço de IA Builder fecha o curso porque ele força uma disciplina: a IA rascunha, o código valida, o arquiteto decide. O arquiteto pede o mapeamento. O agente busca nas fichas v14 indexadas com versão fixada. Ele propõe domínio, padrão e trecho da ficha. O validador usa lista fechada: fora da lista rejeita; obsoleto rejeita e devolve o substituto anunciado quando existe, como Payment Order para Payment Confirmation; novo sem status passa marcado como novo. Depois vem checagem de grounding, e a decisão entra no ADR.
Amazon Bedrock Guardrails, no contextual grounding check, mede duas coisas: grounding, se a resposta está apoiada na fonte, e relevância, se responde à pergunta. O limiar é configurável de 0 a 0,99. Ele precisa de fonte, pergunta e conteúdo. Pega justificativa inventada, mas não pega nome certo de versão errada se a fonte indexada for a errada. Também não decide escopo de norma.
Os modos de falha da parte 2 são práticos: cenário oficial com linha de vida obsoleta, falso amigo como Suitability Checking, nomes parecidos com status diferentes como Direct Debit e Direct Debit Collection, domínio inventado para conceito local como KYC, boleto ou conta-salário.
LGPD art. 20 trata revisão de decisão automatizada, inclusive perfil de crédito. Circular 3.978 art. 44 lembra que análise de lavagem não se terceiriza. A IA apoia o analista, com trilha. Ela não substitui responsabilidade.
A migração estranguladora
Ordene as cinco camadas, da primeira à última.
- 1Fachada: toda chamada passa por uma porta nova
- 2Eventos espelho: o legado publica fatos com nomes v14
- 3Desligar: o legado perde a última função
- 4Escrita nova: o domínio novo vira dono do registro
- 5Leitura nova: consultas saem do domínio novo
Como medir o laço
Cinco passos para a próxima semana
- 1
Fixe a versão
Escolha BIAN 14.0 e impeça que o repositório misture nomes de versões diferentes.
- 2
Aplique as três perguntas
Escolha uma parte do banco e faça as três perguntas: quem é o dono do registro, qual é o padrão funcional e que fato ele publica.
- 3
Mapeie um produto local pelo comportamento
Use o que o produto faz, não o nome local. KYC, boleto e conta-salário não viram domínio por vontade do projeto.
- 4
Confira um cenário nome por nome
Pegue a linha de vida oficial e valide cada nome contra a lista v14 antes de desenhar setas.
- 5
Registre o primeiro desvio
Quando o mapa não encaixar, escreva um ADR. O valor está em explicar a exceção, não em fingir aderência.
Recapitulação da parte 2
Toque num cartão para virar.
Fechamento
O que a parte 2 deveria mudar no meu trabalho?
Você deve sair menos impressionado com nomes de sistemas e mais atento a registros, padrões, eventos, responsabilidades e normas que limitam a decisão.
Quando usar IA nesse processo?
Use IA para rascunhar mapeamentos e contratos com fonte fixada, lista fechada, grounding e revisão humana. Sem isso, ela só acelera erro com vocabulário bonito.
Qual é o próximo passo no curso?
Siga para a parte 3, o crédito por dentro: o documentário e as aulas 18 a 24 do módulo 6 levam o mesmo método para as linhas de crédito, a decisão, os limites, as garantias e a cobrança. O exame final e o certificado ficam na página do curso; o certificado deve provar que você sabe usar o mapa com decisão, não que decorou uma lista de domínios.