Rating, risco e perda esperada
Rating, modelo e provisão são coisas diferentes: PD, LGD e EAD na prática e os três estágios da Res. CMN 4.966.
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Assista ao documentário desta parte: Parte 3 · O crédito por dentro (~81 min)Rating, modelo e provisão vivem na mesma conversa, mas não fazem o mesmo trabalho. Rating é a leitura de risco do cliente hoje. Modelo é a regra que produz essa leitura e a probabilidade associada. Provisão é o dinheiro que o balanço separa para a perda esperada quando esse risco vira contabilidade.
Três coisas que não podem morar na mesma gaveta
A pergunta perigosa nesta aula não é se o banco tem um score. É quem sabe explicar, meses depois, qual modelo gerou aquele rating, qual dado entrou na decisão, qual estágio contábil saiu do outro lado e qual lançamento foi feito no balanço.
No BIAN 14.0, Customer Credit Rating é o lugar natural para acompanhar a avaliação de crédito do cliente. O domínio tem padrão Monitor, 12 operações, BQs Alerts, InternalReporting e ExternalReporting, e o atributo CustomerCreditRatingState, descrito como o rating ou score atual, normalmente um ranking como 1 a 10. A feature chave fala em consolidar o uso dos produtos do banco que impacta o rating.
Credit Risk Models é outra coisa. O domínio tem padrão Design, 19 operações, BQs FunctionalRequirements, Testing e Production, e cobre desenvolvimento, manutenção, avaliação contínua e refinamento da coleção de modelos de crédito usados para derivar credit scoring.
Customer Behavior Models também entra na conversa, mas por outro ângulo: modelos de comportamento, incluindo análises de crédito e fraude. No cenário oficial Process Card Account Delinquency Review, view 55585, aparece a linha de vida Customer Behavior Models com as mensagens Assess Probability of Default, Retrieve Card Probability of Default Model e Update Line of Credit. Minha leitura: comportamento não substitui rating, ele alimenta uma parte da decisão.
Na prática, eu separo três responsabilidades: o rating diz o estado de risco do cliente, o modelo diz como esse estado foi calculado, e a provisão diz quanto desse risco precisa aparecer no balanço. Quando as três coisas ficam no mesmo sistema de produto, a auditoria vira arqueologia.
O vocabulário mínimo para não misturar as peças
PD, LGD e EAD sem teatro estatístico
Basileia dá uma linguagem boa porque força unidade de medida. No Basel Framework em vigor desde 01/01/2023, PD e LGD são medidas em decimais, e EAD é medida em moeda, conforme CRE31.2. Para empresas, CRE32.3 fala da PD de um ano da classe interna do tomador, e um tomador em default tem PD de 100%. CRE32.15 trata LGD como percentual da EAD. CRE32.29 define EAD bruta de provisões.
A fórmula didática que eu uso em sala é simples: perda esperada = PD × LGD × EAD. Tecnicamente, CRE35.2 e CRE35.3 separam EL = PD × LGD e valor de perda esperada como EL × EAD. Para quem está desenhando sistema, a forma expandida deixa claro o contrato de dados.
Exemplo ilustrativo e fictício, sem número de mercado: o carro da Marina tem EAD de R$ 45.000, PD de 0,02 e LGD de 0,40. A perda esperada é R$ 360. Sem a alienação fiduciária, a LGD seria maior. É por isso que garantia muda preço: ela não enfeita o cadastro, ela altera a expectativa de recuperação.
No varejo, Basileia permite olhar pools por características do tomador, da operação, como produto, garantia, loan to value e seasoning, e do atraso, conforme CRE36.17. Default aparece quando é improvável pagar sem executar garantia ou quando o atraso supera 90 dias, com nota permitindo ao supervisor até 180 dias no varejo, conforme CRE36.68.
Termos do risco de crédito
Toque num cartão para virar.
Da probabilidade ao lançamento contábil
A fórmula só fica governável quando cada termo tem dono, versão e destino claros.
- Credit Risk Models · PD e versão do modelo
- Customer Behavior Models · comportamento e atraso
- Customer Credit Rating · CustomerCreditRatingState
- Customer Position · exposição do cliente
- PD · decimal
- LGD · decimal
- EAD · moeda
- PD × LGD × EAD · perda esperada
- Estágio CMN 4.966 · 1, 2 ou 3
- Financial Accounting · Track e lançamento
Os três estágios da Res. CMN 4.966/2021
| Dimensão | Primeiro estágio | Segundo estágio | Terceiro estágio |
|---|---|---|---|
| Gatilho | Sem aumento significativo de risco desde o reconhecimento inicial. | Risco aumentou significativamente, ou o ativo deixou de ser problemático. | Ativo problemático: atraso superior a 90 dias ou indicativo de que a obrigação não será integralmente honrada sem recorrer a garantias. |
| Horizonte da provisão | Probabilidade nos próximos 12 meses, conforme art. 47. | Probabilidade durante todo o prazo esperado, conforme art. 47. | Provisão considerando que o ativo já é problemático, conforme art. 47. |
| Regra que costuma ser esquecida | Atraso superior a 30 dias já é aumento significativo de risco, admitidos até 60 dias com evidência comprovada. | A probabilidade deve ser consistente para todos os instrumentos da mesma contraparte (art. 40, § 3º, vale em qualquer estágio). | Quando um instrumento vai para o terceiro estágio, todos os instrumentos da mesma contraparte vão para o terceiro estágio. |
Onde a provisão entra no mapa do BIAN
Aqui existe uma ausência importante. Eu procurei por provision e impair nos nomes do BIAN 14.0 e não achei Service Domain de provisão. Minha leitura de arquitetura é esta: Credit Risk Models e Customer Position alimentam o cálculo, e o resultado vai para Financial Accounting, no padrão Track, para lançar. Quem calcula o estágio publica o fato.
Isso parece detalhe, mas evita um erro caro. Provisão não é uma coluna que cada produto calcula sozinho. A Res. CMN 4.966/2021 olha a contraparte. O art. 37, § 5º, diz que quando um instrumento vai para o terceiro estágio, todos os instrumentos da mesma contraparte vão para o terceiro estágio. O art. 40 diz que a perda esperada considera a probabilidade de o instrumento virar problemático e a expectativa de recuperação, com custos e garantias. O § 3º exige probabilidade consistente para todos os instrumentos da mesma contraparte.
Também há armadilhas de nome. Counterparty Risk trata rating de contraparte ligado a atividade de transação e rating externo. Credit Risk Operations monitora limites de contraparte de trading, como no caso em que uma mesa checa uma proposta contra limites de crédito de contraparte. Isso não é o limite do cliente de varejo. Business Risk Models olha exposições comerciais ou de negócio e não tem API na v14. Para esta aula, o centro do varejo está em Customer Credit Rating, Credit Risk Models, Customer Behavior Models, Customer Position e Financial Accounting.
Como eu desenharia o fluxo sem inventar domínio
- 1
Separe o rating do modelo
Grave o estado em Customer Credit Rating e mantenha a regra versionada em Credit Risk Models. O rating é resultado monitorado, não o código do modelo.
- 2
Calcule PD, LGD e EAD como contrato de dados
PD e LGD entram em decimal, EAD entra em moeda. Essa separação parece básica, mas é o que evita fórmula escondida dentro de tela.
- 3
Publique o estágio por contraparte
O estágio não deve nascer preso a um contrato individual. Quando um instrumento entra no terceiro estágio, a arquitetura precisa enxergar os demais instrumentos da mesma contraparte.
- 4
Envie o fato contábil para Financial Accounting
O cálculo de risco produz o fato. Financial Accounting registra. Essa fronteira reduz acoplamento e deixa claro quem responde por modelo, estágio e lançamento.
O carro da Marina (números ilustrativos)
Perguntas que aparecem na arquitetura
Score de aplicação e score de comportamento são BIAN?
Eu trataria como prática de mercado, não como definição normativa lida aqui. O mapa ajuda a posicionar a responsabilidade: aplicação costuma nascer na originação, comportamento aparece com histórico de uso, atraso e eventos observados.
Existe Service Domain de provisão no BIAN 14.0?
Não. Eu procurei por provision e impair nos nomes da v14 e não achei. O desenho que uso é cálculo alimentado por risco e posição do cliente, com fato enviado para Financial Accounting.
Modelos por produto aparecem em cenários oficiais?
Sim. Há mensagens como Retrieve Merchandising Lending Risk Model, view 55506, e Retrieve Buy Now Pay Later Risk Model, view 55435. Renovação de empréstimo usa Retrieve Repayment Details of Loan to Be Renewed, view 55456.
Veredito
Eu não começaria essa arquitetura pelo motor de score. Começaria pela pergunta de rastreabilidade: para cada decisão, consigo recuperar rating, modelo, versão, PD, LGD, EAD, estágio, contraparte e lançamento contábil? Se a resposta for não, o problema não é estatístico, é de fronteira de domínio.